*POR PROF. LÚCIO GUSMÃO: O Povo Esquecido: Quatro Anos de Silêncio Entre Duas Urnas

Meus caros amigos, vamos refletir sobre uma história que se repete, quase sempre igual, em quase toda democracia representativa do mundo: por algumas semanas, o povo é o centro de tudo. Promessas se multiplicam, candidatos se curvam, praças se enchem, microfones se abrem para quem normalmente não tem voz nenhuma e eis que algo dantesco se passa, o silêncio volta a cair, e não um silêncio qualquer, mas um silêncio de quatro anos, até que tudo se repita. Já perceberam quantas visitas nossa cidade, assim como tantas outras pelo Brasil afora, recebe de políticos ávidos por falar, se fazer presente, sorrir e, mais uma vez, nos fazer crer que são como nós cidadãos preocupados com nosso dia a dia e com o sustento de nossa família e não em receber vultosas vantagens de cargos eletivos?

Essa história não é nova. Jean-Jacques Rousseau já a havia identificado com clareza cortante no século XVIII, ao observar que o povo inglês se considerava livre, mas se enganava profundamente: a liberdade existia apenas durante a eleição dos parlamentares, e assim que a eleição terminava, o povo voltava a ser escravizado, não passava de nada. Rousseau enxergava, com quase dois séculos e meio de antecedência, o problema que ainda hoje persegue as democracias representativas: o voto como um lampejo breve de poder, seguido de um longo período em que a vontade popular deixa de ser consultada. Não é a eleição em si que é absurda. É o vazio que muitas vezes se instala depois dela, quando as mesmas urgências gritadas nas campanhas somem dos discursos assim que os mandatos começam.

Albert Camus, refletindo sobre a condição humana em outro contexto, mas com implicações que aqui cabem bem, descreveu a experiência da espera absurda; “ aquela sensação de repetir o mesmo gesto sem nunca alcançar sentido definitivo”. Há algo desse absurdo no ciclo eleitoral: o povo vota, espera, e o tempo passa, indiferente às urgências cotidianas que não se resolvem sozinhas, a saúde que não chega, a escola que não melhora, a segurança que não vem. Até quando vamos permitir tais posturas e não exercer nosso poder soberano e a tanto custo conquistado pelos nossos antepassados?

Vamos começar a bradar em alto som para aqueles que utilizam da política para seus próprios benefícios que somos aquele cidadão verdadeiro, que como dizia Aristóteles: que ora governa, ora é governado, numa alternância viva, não numa delegação estática de quatro em quatro anos em eleições nas três esferas do poder.

Recorrendo a Hannah Arendt, que insistia que a política verdadeira só existe onde há espaço público de aparição, onde os cidadãos podem agir e falar juntos, continuamente, não apenas em rituais isolados de escolha, penso que reduzir a política a um evento periódico de votação, seria esvaziar aquilo que ela considerava mais precioso na vida coletiva: a capacidade humana de agir em conjunto, de forma plural e constante. A democracia que se resume ao voto, sem presença constante do povo na vida pública, corre o risco de se tornar apenas isso, uma promessa repetida, um silêncio que se renova a cada quatro anos.

Sendo assim. não podemos permitir que sejamos um povo que entrega sua voz a representantes, sem mecanismos constantes de participação, não podemos permanecer como meros espectadores da própria vida política. Nunca devemos esquecer que o tal poder que assusta e deve ser respeitado é nosso voto consciente, refletido, dignificado e que faz a cidadania ser plena de fato e de direito.

"A instrução que eles irão ministrar terá sempre por objetivo, não o progresso das luzes, mas o aumento de seu poder".  (Condorcet).



*LÚCIO GUSMÃO É PROFESSOR DE HISTÓRIA E FILOSOFIA. E, escreve semanalmente para o JORNAL DO RADIALISTA E RÁDIO WEB FREQUÊNCIA.

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