*POR PROFESSOR LÚCIO GUSMÃO: A Crise de Representação e o Dilema da Escolha nas Próximas Eleições
Meus caros amigos, eis que nos aproximamos de mais um ciclo eleitoral no Brasil e parece que nada aprendemos nas últimas eleições parece-me que esquecemos, ou nos alienamos, da percepção de que votar é mais do que um ato técnico de escolha entre nomes e números, nosso voto deveria se revelar como um poderoso termômetro social, um espelho que reflete não apenas as aspirações, mas também as ansiedades, os medos e as contradições de um povo. Onde nos perdemos nessa alienação imposta que insistimos em não reconhecer presos que estamos em uma Caverna Platônica?
O cenário que se desenha é de profunda
complexidade. De um lado, temos a herança de uma polarização que transcendeu o
campo político e se enraizou no tecido social, dividindo famílias, amigos e
comunidades. Essa “divisão”, alimentada por anos de retórica inflamada e
disseminação de desinformação em escala industrial, transformou a escolha
eleitoral em um ato de identidade quase tribal. Referendar um candidato, hoje,
muitas vezes significa reafirmar um pertencimento a um "nós" em
oposição a um "eles", onde o debate de ideias cede lugar ao confronto
de afetos e crenças. Nesse ponto lembro
de Norbert
Elias em Os Estabelecidos e os Outsiders, nos advertindo que a
dinâmica de exclusão e pertencimento que opera nos grupos sociais
frequentemente suplanta a racionalidade objetiva, acaba por criar fronteiras
simbólicas que são mais difíceis de transpor do que as barreiras materiais. É
nítido que nossa sociedade assim está não acham?
Nesse
contexto, o eleitor se vê refém de um dilema existencial e passa a valer a
velha máxima de que "toda escolha é
uma renúncia" ganhando contornos dramáticos. Optar por uma candidatura
que promete a ruptura radical com o status quo pode significar abrir mão da
previsibilidade e da estabilidade institucional, em troca de uma aposta no novo
(já ouvimos isso antes e de novo nada surgiu), cujos contornos são
desconhecidos. Por outro lado, a escolha pela continuidade, pelo gesto seguro,
pode ser interpretada como uma conivência com as desigualdades estruturais e as
injustiças sociais que há séculos atravessam a história do país. Jean Jacques
Rousseau, em Do Contrato
Social, já nos lembrava que "a
vontade geral nem sempre é a vontade de todos", e que o grande desafio
da política é justamente conciliar o interesse particular com o bem comum um
exercício que se torna quase hercúleo quando o espaço público está intoxicado
pela desconfiança mútua.
Nesse
ponto, a lição de Hannah Arendt é inquietante: em A Condição
Humana, ela afirma que "a
política trata do estar junto e do ser com os outros", e que o isolamento
do indivíduo diante das questões coletivas é o primeiro passo para o
totalitarismo.
Nunca podemos esquecer de nossa cidadania plena e de
que cada voto é um ato de comparecimento à esfera pública, uma
recusa ao exílio político.
"A democracia morre quando o cidadão se
torna espectador."
(Alexis
de Tocqueville)